A discussão que se trava em torno do aborto é curiosa. Da forma que ela se apresenta, nos faz crer tratar-se de mais uma conquista que a sociedade moderna exige; decorrência natural da evolução das civilizações. O almanaque do semanário The Economist, no entanto, mostra outra realidade. Segundo a revista, em países onde a mulher carrega o estigma do fardo social (China, Índia, Irã, Paquistão, Egito), o número de homens é significativamente maior. Enquanto a média mundial nos países ocidentais é de 97 homens para cada 100 mulheres (Estados Unidos, Brasil, Chile, Colômbia, Suécia, Nova Zelândia), nos países onde a mulher não tem iguais direitos - seja em decorrência de preceitos religiosos; seja resultado de condições econômicas sedimentadas; seja por convenções sociais - o número de homens é em média de 106 para cada 100 do sexo oposto.
Esta estatística é estarrecedora, pois nos permite calcular, grosso modo, é verdade, quantas mulheres teriam sido abortadas, supondo que a população não mudasse a cada instante. Nesse passo, como a China tem hoje 1.313.300.000 habitantes, obedecida aquela media, seria natural supor que para cada 97 homens haveria 100 mulheres, ou seja,
Homens = 97 = Homens = 646.650.250
197 1.313.300.000
Mulheres= 100 = Mulheres = 666.650.000
197 1.313.300.000
198
Os números apontam, contudo, que a equação real é diferente:
Homens = 106 = Homens = 675.776.000
206 1.313.300.000
Mulheres= 100 = Mulheres = 637.524.000
206 1.313.300.000
Portanto, onde se deveria contabilizar 666.650.000 mulheres, o número caiu para 637.524.000. Houve, como se vê, a eliminação de pelo menos 29.126.000 mulheres só na China, ou o equivalente a soma da Áustria, Portugal e Bélgica. Um número quase equivalente ao da população do Canadá, ou de todos os chilenos, equatorianos ou holandeses!
Podemos fazer idêntico exercício de cálculo em relação à Índia. Para uma população de 1.081.200.000, o normal seriam 100 mulheres para cada 97 homens:
Homens = 97 = Homens = 532.367.350
197 1.081.200.000
Mulheres = 100 = Mulheres = 548.832.650
197 1.081.200.000
No entanto, o cálculo real é de:
Homens = 105 = Homens __ = 553.785.366
205 1.081.200.000
Mulheres= 100 = Mulheres = 527.414.634
205 1.081.200.000
Na Índia também faltariam aproximadamente 21.418.000 mulheres, eliminadas do ventre materno antes que pudessem vir à luz! Dizem, agora, que despenalizar o aborto no Brasil, é uma questão de saúde pública. Não podemos pensar assim; descriminalizar a prática desse genocídio seria uma questão moral, ou imoral, antes de tudo! Somadas as meninas que deixaram de nascer na Índia, Paquistão, Sirilanka, Indonésia, Bangladesh e Egito, teremos um número igual ao da população da França, Itália ou da Inglaterra - eliminadas da face da terra! E dizer que isso é um direito da mulher sobre seu corpo? Que a sociedade deve consagrar o direito ao abortamento como uma conquista dos tempos modernos?
Este cálculo apenas nos indica o número de mulheres que deixaram de vir ao Mundo pelo simples motivo de serem do sexo feminino, em sociedades que dão preferência aos varões. Também não é conclusivo na medida em que a população sofre mudanças diárias. É, na verdade, bem menor do que o tamanho da tragédia. E qual seria o argumento para combater esta conjuntura tão eloqüente pela dimensão do drama? Que no Brasil não se descriminariam mulheres de homens, ao menos na hora do aborto? Que podemos ficar tranqüilos, pois independentemente de gênero, serão eliminados do mesmo modo, e sempre pelo simples fato de seus progenitores não estarem preparados para assumir a paternidade? Que eliminar em grande número - como fazem na China ou na Índia - não deve ser permitido, mas um feto aqui, outro ali não teria significado maior? Seja como for, o exercício matemático acima nos permite avaliar a extensão desse flagelo que se abate sobre nossa sociedade, e sempre a custa dessas pequenas criaturas, eliminadas de forma violenta, covarde e cruel - sem dúvida, um retrocesso no placar das conquistas da civilização.
No processo de gestação, essas crianças por nascer, aparentemente seguras no útero materno, são inteiramente dependentes de nossa benevolência para vir ao Mundo. Pois justamente no momento de maior debilidade; de total dependência, precisam contar com a proteção dos homens e das mulheres, ao invés de serem ameaçadas por legisladores que pretendem legalizar o que nunca deixará de ser profundamente torpe e cruel.
Heitor Bastos-Tigre
Coordenador do Movimento NS de Guadalupe
Maio de 2007
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