| O tratamento do problema da violência requer uma perspectiva de Fé. E não pode ser resolvido dentro de uma visão meramente humana, temporal. Nos momentos mais agudos, a reação intempestiva ante a brutalidade do crime e do ato infamante do criminoso é compreensível. Urge um clima propício ao indispensável discernimento, diante de medidas mais apropriadas e justas. As explosões temperamentais são até úteis ao reclamo de justiça, mas impedem um raciocínio tranqüilo para obtenção de soluções reais. Para alcançá-las é importante o fator religioso.
Um princípio fundamental é o primado da Justiça e do Direito. Qualquer transgressão à Lei, venha de onde vier, constitui um germe nocivo, que prejudica o combate a essa chaga que tanto nos aflige. Ferida em sua dignidade é a criatura assaltada na via pública como também o interno do estabelecimento penal quando terminada a pena, não retorna a liberdade. O crime tem de ser punido com severidade, mas não à revelia do Juiz. Todo criminoso deve pagar por sua dívida com a Comunidade e fazê-lo de tal maneira que, com a sua soltura, possa ser reintegrado. A crença em Jesus Cristo nos leva a aceitar a possibilidade de recuperação.
Uma adequada ação repressiva se impõe. Entretanto, ela só não é suficiente. Na raiz desse mal está o progresso material sem o espiritual. Pautado pela busca indefinida do bem-estar, conduz à valorização indiscriminada do prazer, abrindo de par em par as portas da libertinagem.
Como fruto dessa mentalidade e indício de decomposição está o aborto, relacionado com esse mal angustiante.
No aborto, é evidente o desprezo à vida, do ser humano que ainda não veio à luz. Trata-se de um indefeso que é brutalmente assassinado para satisfazer a conveniências. Suprime-se uma existência, o sopro vital é apagado. Esse crime se repete aos milhares e aos milhões, permanecendo em torno dele o silêncio de morte. A sociedade se acostumou com essa violação ao direito sagrado do nascituro, e só reage quando ocorre com os já nascidos.
Há anticoncepcionais que ferem, de igual maneira, por serem abortivos. Eles e outros apoiados por programas governamentais, investem contra a sacralidade na Família.
Ir às causas no combate à violência é valorizar a vida e exaltar sua dignidade. À medida que cresce o respeito, cria-se um ambiente que dificulta a agressão ao próximo, seja pelo roubo, violação física de toda espécie ou assassinato. Surge, então uma força contrária que age no interior de qualquer criatura, mesmo emperdenida pelas práticas delituosas.
Essa concepção supõe, em seu fundamento, os princípios religiosos. O Santo Padre, disse: “A concepção cristã do homem, criado à imagem de Deus, é a expressão mais alta da vida no universo (...) existem valores e direitos essenciais, relacionados com a dignidade e o destino supremo da pessoa humana, a começar pelo direito primário à vida”.
Toda a Sagrada Escritura nos fala da vida como de um dom divino. Sua fonte é o próprio Deus: “Em vós está a fonte da vida” (Sl 36,10). Há uma relação íntima com Cristo que, repetidas vezes, e sobre os mais variados ângulos alude à matéria. A sobrevivência eterna é a continuação da que temos no tempo: “A água que eu lhe der tornar-se-á, nele, uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (Jô 4,14).
Contra essa visão se choca a violência em todas as suas modalidades. Somente por Jesus se alcançara o ideal do plano divino, que se completará na eternidade: “Ele enxugará toda a lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais” (Ap 21,4).
Em meio ao clima de revolta diante da insegurança reinante entre nós, o cristão reaviva, em sua memória e põe em prática os ensinamentos do Messias. Como ainda hoje, muitos dos seus contemporâneos ficavam perplexos com a sua Doutrina e testemunho, nessa matéria. Dirigindo-se a um povo subjugado pela tirania, Ele se recusa a ser um político revolucionário: “Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, retira-se de novo, sozinho, para o monte” (Jô 6,15). Prega o perdão e que o amor reconcilie o violento e sua vítima: “Senhor, queres que ordenemos desça fogo do céu para consumi-los? Ele, porém, voltando-se repreendeu-os. E partiram para outra aldeia” (Lc 9,54-55).
O Evangelho é exigente mas ele é o caminho único para alcançar a vitória sobre a violência. A procura de remédios para a correção de uma situação intolerável em nosso meio, deve sempre ter em consideração o ensino do Salvador. É um ponto de referência, é a marca de autenticidade em qualquer medida que se tome. Sem isto, é construir sobre a areia. Uma casa sem fundamentos sólidos está fadada a ruir e arrastará consigo muitas esperanças.
(Voz do Pastor – 11/7/1986)
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