Recentes pesquisas de opinião pública têm demonstrado que a segurança pessoal é a maior preocupação do povo do Rio de Janeiro. A constatação está estreitamente ligada à violência. Tal situação vem se agravando de modo inquietante. Os fatos ocorridos com tanta freqüência e alguns revelando requinte de maldade, não ferem apenas as pessoas atingidas diretamente, mas toda a sociedade.
Muitos se interrogam como reduzir essa espécie de epidemia, que perdura e, o que é mais sério, aumenta. Uma falsa justificativa é dizer que ela existe também em outras grandes cidades. Mesmo isso sendo verdade, não exime a responsabilidade diante do crime. Há muitas metrópoles onde se pode andar com tranqüilidade, de noite e de dia, nas ruas, o que não acontece aqui. Essa afirmativa vale como testemunho pessoal.
Para normalizar o ambiente, urge medidas enérgicas e acertadas que nem sempre são as mais drásticas. Fala-se até em pena de morte. Refiro-me à legal, pois a eliminação por iniciativa própria de populares revoltados – o linchamento – é uma forma de promover o caos, mais grave até que o assalto ou o assassino de um indivíduo. Isso levaria a coletividade a retroceder às épocas bárbaras, onde a lei inexistia, imperando a paixão cega e abrindo as mais tenebrosas perspectivas. Alguém poderá assim se livrar dos seus opositores e desafetos, mesmo inocentes. Lembro-me do que aconteceu nos dias de agosto de 1944, na retomada de Paris: duas pessoas que haviam exposto a própria vida, repetidas vezes, em favor da Resistência, foram apontadas por dois criminosos comuns, em liberdade, como tendo atirado do teto sobre a população. Cheia de ira, a massa ululante os mata. E um deles, sob as esteiras de um tanque de guerra, que passava na ocasião.
A repetição de execuções sumárias entre nós e a organização de grupos de extermínio, à revelia da lei, são indício de degenerescência social, tão absurda como a violência que nos preocupa e envergonha.
Em todas estas manifestações de instintos animais irracionais, importa ir às causas e não permanecer apenas na denúncia e no combate dos efeitos. É importante ir às raízes.
Através da História, a violência tem sido um comparsa infeliz e incômodo das atividades humanas. A nós, cristãos, o pecado é a origem mais profunda dessa chaga.
Deus, ao criar o homem, teve um objetivo. E esse plano não incluía, é óbvio, as deturpações que tanto afligem Seus filhos. A paz e a concórdia reinariam entre todos. Destruída essa ordem, como recuperá-la? Somos livres e a reconstrução desse desígnio divino, perturbado pela desobediência às Suas determinações, depende do bom uso da liberdade.
Segundo, comparação, em recente estudo sobre a busca de uma sociedade não-violenta, estamos diante da devastação conseqüência do crime e violação da lei divina e do homem, como em uma floresta arrasada pelo incêndio. Urge plantar novas árvores. Por isso, a revitalização da vida religiosa, embora a longo prazo, é componente essencial ao retorno à boa convivência e à paz na sociedade.
Relacionada com essa afirmativa está à estreita ligação do ambiente em que vivemos. A degenerescência moral incita à violência.
Creio que com a enérgica repressão, dentro, das normas legais, o grande meio de combater a violência, indo às suas raízes, está no respeito à vida. João Paulo II, falando ao “Movimento pela vida”, na Itália, afirmava: “A civilização, de fato, é medida, antes de mais nada, pelo respeito e pela promoção de vida em todo o arco da existência humana”.
Os valores culturais são uma conseqüência natural do próprio cristianismo. Para nós, o Senhor se revela não como “Deus de mortos mas de vivos, pois, para Ele, todos estão vivos” (Lc 20,38). De Cristo surge a vida eterna, em cujo conceito está contido o resguardo de nossa integridade.
A modificação do ambiente violento que vivemos é viável, porque está ao nosso alcance, enquanto brota de nosso coração: “De um coração novo, nasce à paz”, lemos na Mensagem do Dia Mundial da Paz, de João Paulo II. Em sua viagem à Índia, o Papa recordava Mahatma Ghandi: “A lei do amor governando (...) o amor derrota o ódio”.
Necessitamos corrigir o julgamento que a violência é um mero fruto da miséria. Ela nasce da pobreza espiritual, moral e não predominantemente material.
(Voz do Pastor – 4/7/1986)
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